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Jethro Tull performed by Ian Anderson em São Paulo (10/10/2017)

Dois anos depois de ver Ian Anderson com sua Rock Opera em homenagem ao personagem histórico chamado Jethro Tull, que deu nome à banda, voltei ao teatro Bradesco para mais um show dessa lenda viva do rock mundial, dessa vez para um espetáculo apresentando o melhor do Jethro Tull. Mas espera, era um show do Jethro Tull? Sim, e não…

Desde 2012, Ian pausou as atividades da banda, Martin Barre, o longevo guitarrista, foi fazer shows solo, e Ian começou a usar apenas o próprio nome nas apresentações e discos novos. Até onde sabemos não houve nenhuma briga nem nada do tipo, apenas uma separação amigável. Ian Anderson queria fazer shows menores, em teatros, e fugir um pouco dos shows grandes de estádio, os quais apenas tolerava desde os anos 70.

Sua banda solo conta com os mesmos membros há mais ou menos 15 anos, Florian Opahle na guitarra, John O’Hara nos teclados e David Goodier no baixo. Em 2011, o baterista Scott Hammond passou a integrar o line-up. Depois de todos esses anos de atividades, dois discos solo e um DVD ao vivo, o grupo é bastante integrado e todos muito confortáveis e carismáticos no palco. O estilo de Florian é mais técnico do que o de Martin Barre, que sempre alegou ser um guitarrista de blues em seu âmago, mas o guitarrista faz um bom trabalho tocando os clássicos. O mais apagado no palco é o baterista, Scott usa um kit que me parece ser reduzido em comparação os músicos anteriores e tem um estilo simples e direto. Ele toca o básico, mas não é páreo para nenhum dos três bateristas principais que tocaram com Ian no passado.

O show abriu com Living in the Past e Nothing is Easy, após o que um Ian Anderson relaxado e divertido disse que em seguida tocariam uma música mais nova, de 1978. Assim começou Heavy Horses, uma das duas músicas em que foram reutilizadas as imagens de telão da turnê anterior, que contou com o vocal gravado da vocalista finlandesa Unnur Birna Björnsdóttir, que também toca violino. A próxima música foi uma pedaço de Thick as a Brick, que ao final arrancou uma onda de aplausos em pé de todo teatro. Ian teve que controlar o público ameaçando que, se não nos comportássemos, teria que tocar a música inteira (TaaB tem 42 minutos de duração).

Mais cinco músicas compuseram a primeira metade do show, incluindo a clássica versão de Bourée, de J.S. Bach, direto do disco Stand Up, de 1969, passando por Too Old to Rock ‘n’ Roll, Too Young to Die, descrita por Anderson como muito apropriada para um cavalheiro no início dos seus 70 anos, e terminando com Songs From the Wood, ao final da qual foi anunciado um breve intervalo de 15 minutos, durante o qual fomos instruídos a comprar camisetas. Eu já tinha comprado as minhas antes de entrar no show, então aproveitei para ir ao banheiro.

A segunda parte começou com Sweet Dreams, e passou para Pastime With Good Company, a folclórica música inglesa atribuída ao rei Henrique VIII, que Ian apresentou ao público como o famoso monarca que tinha por hobby decapitar suas esposas. Fruits of Frankenfield foi a próxima música, uma composição nova feita para a turnê anterior, seguida de Dharma for One, que foi apresentada como em memória ao grande Clive Bunker, primeiro baterista do Tull. Eu levei um susto, pois achei que ele houvesse morrido e eu nem tinha sabido, mas o brincalhão Ian Anderson logo esclareceu que ele continua muito vivo. Essa música, desde os anos 70, era usada para que Clive fizesse seu famoso e longo solo de bateria, no qual mostrava toda perícia e feeling absurdos que possuía. Scott Hammond apresentou sua versão, que foi interessante, mas que não passa de uma sombra do original.

Após a clássica A New Day Yesterday, Ian contou a história de um menino de 8 anos que acordou um dia para encontrar uma guitarra que seu pai lhe havia deixado de presente ao lado da cama. Esse menino começou a treinar e sonhava em se tornar um deus do rock. Nesse ponto Ian aponta para Florian, diz que ele era o menino e a guitarra era a mesma que estava usando, e que hoje talvez fosse o dia em que ele iria ascender ao grau de uma divindade da guitarra. Depois dessa característica narrativa de Anderson, que transborda seu clássico humor inglês, Florian começa um solo de guitarra.

O solo é da música Tocata e Fuga em Ré Menor, também de Bach. Esse é o ponto do show em que fica mais clara a diferença entre ele e Martin Barre. O solo é extremamente técnico e rápido, algo que Barre jamais faria por ser o tipo de coisa que não o atrai esteticamente, e para ser sincero nem combina muito com o estilo do Tull.

Nos encaminhamos para o final do show, e o público vai à loucura com as apresentações de My God, seguida de perto por aquele que é, quiçá, o maior clássico do Tull: Aqualung. Do meio de Aqualung pra frente, todo teatro está acompanhando a música de pé, e o clima é de comoção e desvario por ver esse clássico ao vivo, com Ian Anderson à frente de uma banda que consegue entregar uma versão poderosa da música. Esse foi o segundo som em que foi usado o telão com a gravação da turnê anterior, com Ryan O’Donnell fazendo parte dos vocais.

Finalmente as luzes se apagam e a banda sai do palco, voltando alguns minutos depois para finalizar o show da forma clássica em que shows do Jethro Tull/Ian Anderson tem sido finalizados há mais de quarenta anos: com Locomotive Breath. É incrível ver Ian tocando flauta e solando numa música como essa. A platéia mais uma vez foi a loucura, muitos apoiados no palco, a maioria em pé, para testemunhar o fim da apresentação.

Após o final, a banda entrou no palco um a um, enquanto eram apresentados. No telão, os membros da equipe técnica e convidados foram também apresentados, e ao final Ian Anderson entrou no palco anunciando que o Brasil havia ganho o jogo, que acontecia simultaneamente ao show, no Allianz Parque, ao lado do teatro, e estava na Copa. E assim terminou mais uma passagem dessa lenda do rock pela capital paulista.

Ian Anderson esteve em São Paulo em 2013, depois em 2015, e finalmente agora, em 2017. A próxima turnê da banda será em comemoração ao 50 anos de atividades e começa ano que vem. Eu espero que o padrão se mantenha e eles voltem ao Teatro Bradesco em 2019. Eu estarei lá, se possível na primeira fila, e, claro, escrevo sobre o show logo em seguida. Até lá!

Setlist:

1. Living in the Past
2. Nothing Is Easy
3. Heavy Horses
4. Thick as a Brick
5. Banker Bets, Banker Wins
6. Bourrée
7. Farm on the Freeway
8. Too Old to Rock ‘n’ Roll, Too Young to Die
9. Songs From the Wood

Intervalo

10. Sweet Dream
11. Pastime With Good Company
12. Fruits of Frankenfield
13. Dharma for One
14. A New Day Yesterday
15. Tocata e Fuga em Ré Menor
16. My God
17. Aqualung

Bis:
18. Locomotive Breath

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