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Toda amplitude do que é ser humano ou Porque criar personagens diferentes de você mesmo

Todos os grandes escritores que eu admiro criam ótimos personagens. E além de criar ótimos personagens, eles exploram, em cada um deles, uma faceta diferente da humanidade. É claro que o primeiro instinto ao começar a escrever uma obra é a autorepresentação, afinal quem conhecemos melhor do que a nós mesmos? É mais fácil nos fazer protagonistas e nos colocarmos em situações fantásticas e absurdas que só poderiam acontecer na ficção. Na minha opinião, o que separa um grande escritor dos demais, é sua capacidade de, eventualmente, negar essa facilidade e passar a criar personagens diversos, de outros gêneros, raças ou orientações sexuais, e fazê-los saltar das páginas de um livro como se fossem alguém de carne e osso.

O primeiro passo para isso, assim como para muita coisa na vida, é estar disposto a encarar esse desafio de fazer da literatura mais do que apenas trama e enredo, mas humanizá-la profundamente, indo além do seu próprio ser. Outro desafio é fazer isso sem reproduzir estereótipos batidos, que resultam em personagens rasos ou em meras caricaturas. Talvez seja por isso que muitos autores não criem personagens diferentes. Eu considero um perigo imenso que sua zona de conforto deixe de ser apenas a posição mais fácil a se assumir e passe a ser defendida como o único caminho que você pode tomar.

Eu já ouvi autores conhecidos falando que não escreviam mulheres porque eles mesmos não eram mulheres, porque não entediam os problemas específicos da psique feminina. O mesmo vale para gays ou transexuais, ou qualquer outro perfil que fuja ao do próprio escritor. Esse autor não consegue transpor para o papel uma realidade diversa da sua, e defende que, se ele não tem experimentação empírica de outra existência, logo não vai falar sobre aquilo. Eu tenho um nome para isso: preguiça. Criam-se livros fantásticos, com bestas mitológicas, raças humanóides diferentes, aliens, fantasmas, uma miríade de seres, mas mulheres e gays não. Aí já é demais.

A desculpa do desconhecimento é a mais embaraçosa atrás da qual um escritor pode se esconder. A internet é um mar de conhecimento que dissolve esse argumento num par de cliques. Se uma experiência mais humana se faz necessária, uma conversa franca pode resolver o problema. Não há desculpas. A profissão de escritor exige que se vá além da superfície em diversos temas, nos quais muita pesquisa é requerida, a depender da obra sendo composta, mas o mais essencial deles é a exploração do que é ser humano. Em todas suas formas.

Hoje assisti a uma entrevista de Valter Hugo Mãe, realizada no programa do Jô no dia 14/11. Fiz questão de transcrever um trecho, que retrata uma visão da literatura que, em minha percepção, deveria ser partilhada por todos que se enveredam pela arte da escrita, não importando se estão escrevendo uma história mainstream, uma fantasia medieval ou ficção científica, vale para qualquer texto que lide com humanidade. Logo, vale para qualquer texto.

Entrevista completa de Valter Hugo Mãe no Programa do Jô. O trecho abaixo transcrito começa em 8:11

: Porque você acrescentou o “Mãe” ao seu nome?

VHM: Valter Hugo Mãe é meu primeiro passo literário, minha primeira proposta literária. Porque eu estou convencido de que a biologia reservou às mulheres aquilo que passa mais perto do milagre, nada que aconteça a um homem é da dimensão da maternidade. E por isso eu reclamo muito, eu protesto muito contra a ideia de que o homem é o sexo forte, eu acho o homem o sexo fraco, acho o homem o sexo pobre, a mulher é efetivamente o lado enriquecido da humanidade. E por isso utopicamente o que um autor quer fazer, o que um escritor quer fazer é talvez ser dotado da possibilidade de entender o lado de lá, o outro. Eu não escrevo autobiografias, a ficção não é minha vida, minha vida não é ficcional, é real, e por isso a ficção é sempre uma proposta de entendimento do que o outro é, e na extremidade do outro, ou seja, na extremidade de mim está exatamente a mãe, ou seja, a mãe sendo necessariamente alguém que me pôs no mundo, o pólo mais extremo de mim, o ponto mais afastado de mim. E por isso é exatamente essa ansiedade de poder enquanto escritor usar o texto para entender toda amplitude do que é ser humano.

: Que bonito, eu acho isso uma ideia tão maravilhosa, sabe, tão assim de quase que uma tentativa, primeiro que é uma homenagem, e uma tentativa de visita ao útero.

VHM: É, e essa auscultação da diferença, digamos assim. Eu sou um pouco intolerante às intolerâncias, e então tenho essa necessidade de verdadeiramente dedicar o meu trabalho ou fazer o meu trabalho por causa do outro, é isso que me interessa.

Foi muito bom ver essa entrevista, essa opinião do Valter reflete muito aquilo do que acredito e que pretenciono buscar na escrita. Deixo essa reflexão a todos aqueles que se aventuram nas letras, ou pretendem fazê-lo.
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