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Leituras de Janeiro de 2016

O último trimestre de 2015, talvez até um pouco antes disso, foi um período complicado na minha vida pessoal e profissional, de modo que li pouquíssimo. Na verdade me lembro de ter lido um livro de contos para o CabulosoCast, mas nada além disso.

Como os problemas que me atribulavam acabaram, decidi que em 2016 eu iria aproveitar direito todo tempo de deslocamento em metrôs e ler direito, e uma vez que comecei a fazer isso não vi motivos para parar ou diminuir a velocidade de modo que li o número surpreendente de 10 livros esse mês! Vou comentar brevemente cada um deles,  adaptando minhas avaliações no Goodreads. Tem coisas ótimas que todos deveriam ler e outras que eu sinceramente nem sei porque foram publicadas, mas faz parte!

limboLimbo, de Thiago d’Evecque (4 estrelas)

Esse livro me foi indicado por amigo, e decidi começar as leituras do ano por ele. Foi uma ótima escolha. O livro é curto e muito bem escrito. O autor conduz bem a narrativa, tem uma linguagem legal e sabe alternar muito bem entre cenas de ação e passagens mais reflexivas, de maior profundidade. Os personagens são bem desenvolvidos e convincentes, e a trama é muito interessante.

Não se pode falar muito dela sem entregar demais, mas acompanhamos a narrativa em primeira pessoa de um espírito no Limbo onde ele deve mandar de volta à Terra, em forma humana, espíritos que estão lá presos para que auxiliem a humanidade, que está em perigo.

O livro é recheado de referências à cultura pop e mitologia, mas tudo feito de forma extremamente competente e verossímil, nada é forçado ou colocado apenas para que o autor mostre em sua obra as coisas de que gosta. Tudo tem um propósito.

A história não é pretensiosa e nem tem ares épicos exagerados, um mal que afeta muitos autores iniciantes de fantasia. A narrativa alterna momentos sérios com outros mais bem humorados, influência clara de Pratchett, a quem o autor faz uma homenagem nas dedicatórias da obra. Enfim, uma leitura gostosa e muito envolvente, espero ler mais do autor em breve.

Crash, de J. G. Ballard (4 estrelas)crash

Crash. Vamos lá. Fiquei um bom tempo pensando em que nota daria pra Crash. Tive que dar 4 porque eu sei que é um livro bem escrito e bem estruturado, e porque ele me fez ficar tão incomodado com sua leitura que não poderia levar uma nota baixa. Um livro que mexe com o leitor de formas inesperadas geralmente é um bom livro.

Isso dito, é especialmente difícil ler esse livro, que trata de pessoas que tem tesão em acidentes automobilísticos, quando se está na estrada, situação na qual li uns 40% dele.

Crash é forte, é cru, em alguns momentos é um tanto repulsivo. Ele te hipnotiza numa fascinação que de certa forma parece até errada, mas não te deixa tirar os olhos da página. Eu atribuo isso em partes à narração em primeira pessoa. O personagem não considera nada daquilo errado ou estranho, e a segurança que ele tem de si mesmo e deu seus atos mais bizarros é inquietante. Esse é um livro de extremos, ame ou odeie (embora meu caso seja mais “gosto mas não faço ideia de por que”), então leia por sua conta e risco.

a5ondaA Quinta Onda, de Rick Yancey (3 estrelas)

Esse foi o primeiro livro Young Adult que li. Gostei especialmente da narrativa em primeira pessoa, muito bem executada, e do desenvolvimento dos personagens,
mas tem algumas coisas na trama que não entendi. A quinta onda não faz o menor sentido, não compreendo porque os aliens já não teriam resolvido tudo na quarta e acharam esse modo bizarro de fazer as coisas. Parece que era algo que o autor precisava pra história funcionar e ficou forçado.

Também não entendi, se o aliens observavam o planeta há milhares de anos e sua intenção era colonizar, por que esperar a população crescer imensamente e se desenvolver tecnologicamente? Pra mim isso só dificulta a vida deles e os obriga a destruir muito mais o planeta que pretendem usar.

Os romances juvenis não me incomodaram, mas sinto que no volume 2 em diante há o risco de haver triângulos amorosos que possam ficar chatos. Enfim, apesar desses aspectos de trama, é um livro muito bem escrito e envolvente, e devo continuar a leitura pois conforme me disseram o autor esclarece muito das dúvidas que esse volume me deixou.

grau 26Grau 26, de Anthony E. Zuiker (1 estrela)

Esse é um dos piores livros que li na minha vida. Prosa fraquíssima, texto chato e mal construído, personagens superficiais ao extremo e história cheia de buracos. O escritor era o criador de CSI (a série de TV), se entendi bem, e o livro foi vendido como um “digibook”, pois entre os capítulos tem um código para ver vídeos online que complementariam o livro. Na primeira viagem de metrô que comecei a ler passei por uns cinco desses, óbvio que não interrompi a leitura até chegar em casa. Não assisti nenhum. Considerei que se o livro dependesse mesmo disso, não deveria ser tão bom.

O livro se passa no nosso mundo, na nossa realidade, e é uma caçada a um criminoso. O mínimo que eu espero de um livro desse é verossimilhança com nosso mundo real, pois é a isso que ele se propõe. Ao contrário, ele usa de teorias de conspiração, distorção surreal de coisas que realmente existem e outras coisas que são simplesmente pura idiotice. Vou dar um exemplo de cada uma dessas três categorias para fechar essa resenha:

  1. O governo dos Estados Unidos tem uma agência secreta chamada Artes Negras (!!) que pode ser usada por certas pessoas poderosas para matar agentes americanos quando eles falharem em suas missões, mesmo se essa “falha” seja algo banal e totalmente justificável;
  2. Realmente existe uma lista dos 22 graus de psicopatia, que classifica os assassinos. Há itens na lista que só é possível diferir após análise psicológica do assassino, visto que tem a ver com suas motivações. No livro, entretanto, todos sabem com certeza que esse assassino é um grau 26, que nem existe, e o assassino não faz nada que justifique a criação de um novo grau além dos 22 existentes;
  3. O cara é um assassino que já matou dezenas, quiçá centenas de pessoas, e só foi avistado uma única vez por um agente. Quando ele sai para matar usa um traje emborrachado da cabeça aos pés. O traje é branco. BRANCO. Ok.

Eu poderia falar muito mais mas isso já é o suficiente. Passem longe.

mistbornMistborn: The Final Empire, de Brandon Sanderson (4,5 estrelas)

Que livro!

Construção de mundo fenomenal, ótimo desenvolvimento de personagens, trama muito bem pensada e ótimos plot twists.
De 90% pra frente acontecem coisas que eu jamais imaginaria e fazem total sentido. Um grande livro de fantasia.

Se o Goodreads aceitasse nota quebrada, daria um 4.5, pois o autor às vezes é prolixo e explica demais certas coisas do funcionamento de magia e tal. Não raro ele se repete e também explica coisas que serão importantes uns 2 capítulo depois: falta sutileza para dar informações importantes.

São coisas que me incomodaram e não dá pra descartar, mas é uma leitura incrível e eu devo certamente continuar com a série. Espero que o autor confie mais em mim nas próximas vezes. A despeito disso, recomendo fortemente.

operseguidorO Perseguidor, de Julio Cortázar (4 estrelas)

Adiei por muito tempo ler Cortázar, mas essa novela me fez ver que preciso ler mais do cara. É uma história com um clima noir e falando sobre um gênio saxofonista de jazz. A prosa é gostosa, caótica, por vezes um tanto metafísica, muito gostoso de ler.

Essa edição em especial é uma coisa linda, um dos livros da Cosac Naify que comprei por metade do preço quando a editora anunciou que ia fechar. Ele é todo ilustrado, com belas gravuras do ilustrador argentino José Muñoz. Se ainda der tempo de comprar essa belezinha corre que vale muito a pena e depois será difícil de encontrar.

abrincadeirafavoritaA Brincadeira Favorita, de Leonard Cohen (5 estrelas)

A Brincadeira Favorita é um livro envolvente, que incomoda e instiga com sua narrativa caótica e poética. 

Ele passa a impressão de ser deliberadamente misógino, mas ao final acredito que essa misoginia é menos um ódio e mais uma adoração do feminino provinda do medo do personagem por conhecer a si mesmo, que o leva a mergulhar em corpos e versos, cada qual se retroalimentando e fortalecendo suas delusões e desilusões.

Essa aspecto egoísta se apresenta até para com o amigo que, tendo crescido, deixou de atender às suas expectativas de conversas espirituosas, a única coisa que realmente o interessava nele. Desprovido do cinismo e do trágico, tornou-se descartável.

Um vez encarado enfim pelo amor, fugiu, e não se importando com sua contraparte, apegou-se à idealização da mesma, como uma memória, e como se ela ainda estivesse lá, como um porto seguro para o qual poderia voltar, ou ao menos se enganar de que poderia. É um livro sobre um adolescente que cresce e busca se esconder de todas as formas de quem poderia ter se tornado.

odiadocuringaO Dia do Curinga, de Jostein Gaarder (4 estrelas)

Livro divertido. Imagino que deva ser ótimo para apresentar conceitos de filosofia e etc para crianças, com uma história mágica ao fundo, se fundindo com a realidade de um modo fascinante.
O livro fica um pouco confuso nos últimos 10%, as histórias meio que se confundem, mas nada de grave. Gosto do final, quando o personagem principal, agora adulto, não sabe se aquelas coisas todas de fato aconteceram, ou se foi sua imaginação infantil colorindo com sua inocência a jornada que fez com seu pai pela Europa em busca da mãe que há muito deixou casa e família.
Gostaria de ter lido isso quando era mais novo.

ocavaleirodossetereinosO Cavaleiro dos Sete Reinos, de George R. R. Martin (4 estrelas)

Esse é um livro com três novelas acompanhando as aventuras do cavaleiro andante Dunk e seu jovem escudeiro Egg e se passa em Westeros cerca de 100 anos antes do eventos da série Canção de Fogo e Gelo.

Gostei muito da primeira novela. Não sabia ao certo o que esperar, e me surpreendi positivamente. Havia esquecido como o velho Martin escreve bem, tendo o lido pela última vez em 2011, e conhecer mais a fundo as histórias de Westeros apenas citadas na série principal foi muito interessante.

A segunda novela é um tanto mais despretensiosa, temos Dunk como cavaleiro estabelecido servindo a um senhor menor. Interessante pelo desenvolvimento dos personagens e para contar mais da história recente de Westeros, mas sem maiores consequências. Uma boa história.

A terceira novela parece que seguirá contando apenas mais um torneio em que Dunk participa, mas cresce e vira algum bem maior. Gosto do tom político e conspiratório. É uma história bastante satisfatória, e fecha o livro muito bem. As três novelas formam um conjunto coeso, e me fazem querer ler mais sobre Dunk e Egg, o que pode demorar a acontecer.

aartedepedirA Arte de Pedir, de Amanda Palmer (5 estrelas)

Primeiramente, eu acho que esse livro não se vende bem para quem não conhece e acompanha Amanda Palmer (meu caso). O título soa como auto-ajuda. No meu entender não é auto-ajuda.

Li isso livro como uma saborosa auto-biografia que, como foi impulsionado pelo sucesso da campanha do Kickstarter da Amanda, foi escrita tendo como ponto focal o ato de pedir e os relacionamentos interpessoais.

A história por si só é muito interessante, cheia de gente complexa e intrigante, e é apresentada em pequenas porções que me agradaram. Um bônus (bem grande) é conhecer melhor Neil Gaiman, como pessoa mesmo, não como o mítico autor, num nível pessoal bastante detalhado.  O livro é emotivo, intenso e às vezes é uma bagunça total. Gostei bastante.

 

E esse foi meu mês de janeiro, bastante movimentado, e cheio de indicações e contra-indicações. Pretendo fazer outro texto desse para as leituras de fevereiro, que certamente deve contemplar menos livros, pois além de o mês ser mais curto estou lendo um tijolo que um amigo pediu pra betar que não será resenhado, por motivos óbvios.

Até mais!logolucas_vectorized

Published inResenha
  • http://leitorcabuloso.com.br/ Domenica Mendes

    Lucas, eu só fazer uma observação! Quando estávamos gravando o CabulosoCast sobre “A Quinta Onda” você disse isso e repetiu aqui. Mas, preciso te lembrar de uma coisa: “A Quinta Onda” não foi o primeiro Young Adult que você leu. O primeiro foi o “Cidades de Papel”, lembra?

    Ia fala aquele dia, ia falar depois, to falando agora! xP~

    Do

  • http://www.lucasferraz.com Lucas Rafael Ferraz

    Puxa vida!!!

    Sabe, eu acho que por YA eu tinha mais uma ideia de livros de distopia, porque tem tanto YA distópico, mas na real é mais que apenas distopia né? Hehehe.
    Vou corrigir pra primeiro YA distópico que li, valeu! =]