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A Incapacidade Interpretativa e o Endeusamento da Opinião

Acredito ser notório para todos que vivem conectados e em contato com redes sociais o quanto as pessoas não sabem interpretar textos. Ou não querem, mas por hora vamos trabalhar com o não sabem. Eu tenho presenciado isso acontecendo com vários textos, dos mais claros e literais aos mais sutis, e isso em tempos nos quais a comunicação escrita tem aumentado consideravelmente. Muito se fala que nunca se leu e escreveu tanto, e talvez as redes sociais sejam em muito responsáveis por isso, mas em grande parte dos casos ler bastante não significa que você sabe o que está lendo.

Outro dia vi um post no Facebook, feito por uma página de tecnologia, que mostrava o vídeo de um robô desenvolvido para resolver um cubo mágico. Ele tem uma scanner que lê as cores do cubo e dois eixos de movimento que o montam. Nos comentários havia muita gente impressionada com o nível de inteligência da máquina, como se aquele robô fosse capaz de resolver qualquer problema lógico, afinal, se sabe montar o cubo pode fazer muito mais, certo?

Errado. Fiz um comentário explicando que o robô era capaz de fazer aquilo e apenas aquilo. Que a teoria de seu funcionamento é relativamente simples e o algoritmo para resolver o cubo é conhecido há muito tempo. Disse que o projeto é bem bacana e bem desenvolvido, mas que não há nada de incrível em termos de inteligência computacional. Fui achincalhado. “Faz melhor então”, “Está desmerecendo quem montou o projeto”, “É um absurdo rebaixar o programador dessa forma”, e outras dezenas de variantes. Dezenas. Algumas poucas vozes se ergueram em apoio, os poucos que leram e interpretaram o que eu dizia.

Nesse sábado de ENEM (24/10/2015) vi isso acontecer novamente, em escala nacional. A vítima da vez foi um trecho da feminista francesa Simone de Beauvoir, que segue abaixo:

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Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam de feminino.

Os ataques que surgiram a esse texto partiam de uma interpretação literal errônea. Entendeu-se que ao dizer que “ninguém nasce mulher: torna-se mulher”, Simone estava falando de transsexualidade, e vi muita gente, mas muita gente mesmo, agindo de maneira enraivecida, gritando que se nasceu com vagina é mulher sim, que essa doutrinação de gênero é um absurdo e diversas outras falácias.

Fato é que se espera de um aluno prestando ENEM que saiba interpretar as múltiplas camadas de um texto como esse. O texto faz uma diferenciação entre fêmea humana enquanto ser humano nascido com o sexo feminino, e a mulher enquanto membro ativo da sociedade, e critica o fato de que o meio social, especialmente em sua época, na década de 60, não via a mulher como elemento importante na vida social, mas como um masculino menor, um masculino castrado, em suas palavras, que teria que lutar para se provar e ser aceita. É isso, simples assim.

Em meio aos ataques, não foi difícil ver gente falando que isso é “doutrinação marxista”, entre outros coisas. Mas o que raios o marxismo tem a ver com os direitos das mulheres? O que a esquerda política tem a ver com defesa de movimentos sociais? Tem que ser de esquerda para condenar a violência contra mulher? E de onde vem esse tipo de afirmação sem qualquer sentido? Essa é fácil, vem do ódio cego pelo governo atual aliado a um conservadorismo religioso que beira o fanatismo.

Eu também não simpatizo com o governo federal, mas daí a sair gritando impropérios aos quatro ventos é outra história, impulsionada por vozes religiosas no congresso, vozes essas que sonham em banir o conceito de laicidade e impor sua visão do cristianismo sobre a nação inteira. Tudo é bobagem, tudo é mimimi, a capacidade de empatia é nula e ninguém se importa com o próximo. Isso pra não falar na questão da transfobia. Interessante que se digam cristãos.

Mas vamos para a segunda parte desse texto: o que acontece quando alguém que acha que algum movimento social de defesa de minorias é uma bobagem é confrontado com argumentos reais e sólidos? Tive algumas experiências com isso recentemente, e as reações que recebi foram as de quem não quer entender o que lhe é dito:

  • Ironia velada;
  • Tentativas de invalidar minhas motivações;
  • Argumentações cheias de simplificações grosseiras;
  • Falácias;
  • Simplesmente ignorar pontos levantados por mim;
  • E, por fim, colocar um ponto final na discussão defendendo o direito a ter sua própria opinião.

“Essa é minha opinião, e eu não preciso ler nada nem estudar nada para defendê-la”, ou, como tenho chamado, o Direito Inalienável a Defender sua Sagrada Opinião Baseada em Nada. Quando as pessoas chegam nesse ponto eu deixo a discussão, porque realmente não chegaremos a lugar nenhum.

Mas veja bem, não estou dizendo que uma discussão de dois pontos de vista diferentes devam, necessariamente, culminar no convencimento de quaisquer das partes a passar a concordar com a outra, apenas que haja honestidade a abertura de ambos os lados para conduzir a conversa sem cair em falácias e desonestidades argumentativas. Que haja a humildade de pesquisar e ler sobre um assunto antes de sair falando o que der na telha e defender isso com unhas e dentes como “minha opinião”.

Enfim, é legal ver esses temas em pauta por todo país, sendo debatidos e discutidos, ainda que com muita resistência e, não raro, atitudes simplesmente preconceituosas e desonestas. Mas nenhuma mudança vem fácil, e quem não é atingido por intolerância ou violência devido a gênero, raça, religião, orientação sexual e todas demais formas de preconceito leva um tempo para se sensibilizar com esses grupos. Para esses eu digo que sejam mais abertos, mais empáticos, e, por fim, tenham menos certezas.

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Published inOpinião
  • Priscila Cardoso Fraga

    Falou exatamente o que penso. Apesar das pessoas lerem mais e escreverem mais, vivemos um grande problema na sociedade brasileira: o analfabetismo funcional que resulta em pessoas sem poder de interpretação, abstração e argumentação. Parabéns pelo texto!

  • http://www.lucasferraz.com Lucas Rafael Ferraz

    Olá Priscila!

    Agradeço pelo comentário!
    Pois é vivemos tempos de pouca ponderação e onde as pessoas tem certezas demais sobre a vida.
    A esperança é que um dia esses debates tornem o diálogo em nossa sociedade algo mais natural e que renda bons frutos.

  • Caio Borrillo

    Pessoas usam estatísticas do grupo DataFoda Vindo da Minha Própria Cabeça SA, acham que dados, história, e vários fatos comprovados são menores diante de suas opiniões e saem cagando pelas caixas de comentários. A gente olha entristecido pra esse tanto de imbecilidade que anda pululando pelas redes sociais, porque parece que as pessoas estão com preguiça mesmo, desonestidade, ignorância, sei lá, tudo junto.

    Aí a gente se cansa, porque cansa mesmo, não comenta nem argumenta com ninguém, afinal a gente vai ser atacado, e aí acaba parecendo que eles é que tem razão.

  • http://www.lucasferraz.com Lucas Rafael Ferraz

    História da minha vida Caio!
    Pior que não tenho conseguido me calar diante de certas coisas que as pessoas tem dito, e toda tentativa de abrir conversa, por melhor que eu faça, descamba pra esse tipo de argumento falho e defesa de opinião.

    Obrigado pelo comentário!