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Jethro Tull: The Rock Opera em SP (07/10/2015)

No começo eu achava que Jethro Tull era uma banda de metal. Peço que relevem minha ignorância juvenil. Na época, mais de 10 anos atrás, eu não ouvia heavy metal, então da primeira vez que ouvi Aqualung, por indicação de um amigo, achei que aquele som pesado devia ser algo recorrente no estilo da banda. Não ouvi mais durante um bom tempo. Até que alguma coisa aconteceu.

Eu queria me lembrar o que foi essa coisa, talvez por alguma idealização boba de que só pode ter sido um evento de importância cósmica, quando provavelmente apenas fiquei curioso de novo e peguei um disco inteiro pra ouvir. Aliás, ser adolescente numa cidade pequena, sem lojas de CD’s, e nos tempos que os olhos chegavam a marejar ao ouvir a sinfonia do modem conectando na internet discada, não era fácil. Às vezes levava um dia inteiro para baixar um CD. Nesse ponto fui ajudado por bons amigos que me mandaram CD’s pelo correio lotados de MP3.

Daí em diante, nunca mais parei, e depois de mais de 10 anos e algumas chances perdidas, pude finalmente ver um show do Ian Anderson. Considerei baixar um bootleg da turnê, mas resolvi não fazer isso, achei mais interessante ser surpreendido pelo que seria apresentado. Não vi nada no site, e evitei olhar comentários na internet. Antes do show acabei vendo um post do Ian sobre as críticas que o show recebeu por ter outros vocalistas, mas vou chegar nisso depois.

Bom, pra começar devo disser que sim, houve uma condensação de líquido salino na região dos meus olhos quando o véio entrou no palco. Ainda não entendi muito bem o que foi. A primeira coisa que eu notei foi o baixista, que não era o David Goodier, mas um rapaz chamado Greig Robinson. Não sei porque o Goodier não veio, mas ele participou do show de outra forma. O Greig fez bem seu papel. Os demais músicos são os mesmos das últimas turnês, John O’Hara nos teclados, Scott Hammond na bateria, e Florian Opahle na guitarra. Na parte multimídia do show temos Ryan O’Donnell, David Goodier e Unnur Birna Björnsdóttir.

Esses três participam do show através do telão atrás do palco, e o Ian divide grande parte dos vocais com eles. A moça canta demais da conta e também toca violino. Mas vamos entender um pouco melhor o show. Para esse espetáculo o Ian queria contar uma história fictícia baseada no Jethro Tull histórico e em seus descentes, até sua morte no ano de 2041. Para isso ele pegou várias músicas do Tull e juntou com algumas novas composições, e para que isso ficasse bem amarrado conceitualmente, as músicas do Tull sofreram algumas adaptações nas letras. Não é nada que realmente descaracterize, algumas são mudanças de ponto de vista, para serem cantadas em terceira ou primeira pessoa, dependendo da necessidade da história.

Foto: Bianca Tatamiya / Teatro Bradesco
Foto: Bianca Tatamiya / Teatro Bradesco

Os músicos que participam no telão fazem papéis específicos dentro da história, e algumas pessoas criticaram que eles deveriam então estar no palco também. Bom, pensando apenas na parte logística da coisa, não é fácil fechar uma agenda de shows extensa pelo mundo com 8 pessoas, mas não sei se esse foi o fator decisivo. O fato é que o vídeo no telão conta um história, com cenários, com atuações, com contextualização, com efeitos visuais. As pessoas estão caracterizadas de forma diferente a cada música e tudo mais. É algo que para fazer no palco ia dar muito trabalho e demandar uma estrutura de show muito maior, e é algo exigido pelo conceito de Rock Opera que o Ian queria trazer. E ficou legal demais!

Ele interage com o vídeo, faz duetos, ou fica na flauta enquanto as pessoas cantam. Os efeitos são de encher os olhos, é um espetáculo multimídia muito bem montado e executado. Li uma crítica que fala sobre isso, a sincronicidade entre palco e telão, que poderia ser ruim por deixar os músicos muito amarrados, sem poder improvisar nem nada, tudo cronometrado. Entendo que as pessoas pensem isso, mas conhecendo bem Jethro Tull como conheço, sei que na verdade sempre foi assim.

Chega a ser impressionante como os shows da banda sempre foram muito bem ensaiados e executados. Não tem muito espaço pra improvisar. A primeira vez que ouvi um bootleg dos shows de Thick As A Brick de 72 e ouvi aquelas passagens solo de teclado do John Evans, e todos os outros momentos de “improvisação” que não estão no disco fiquei maravilhado, achando que cada show devia ter um jam diferente. Depois, ouvindo outras gravações da turnê, percebi que eram todos iguais. É uma característica do Ian, até a aparente improvisação é ensaiada, então com telão ou sem telão, todos os shows seriam iguais de qualquer forma.

Voltando ao show, ele já começa com a porrada que é Heavy Horses e segue com Wind Up, Aqualung e etc. Vou colocar o setlist completo abaixo, mas achei bastante interessante a escolha das música, que é basicamente um mix de Stand Up/Benefit/Aqualung com Songs from the Wood/Heavy Horses.
Essas músicas para mim refletem bastante o que o Ian quis fazer com o show. As músicas dos discos mais antigos são as que tem o teor mais auto-biográfico e pessoal de Ian Anderson, e ele usou isso justamente para contar a história da vida de seus personagens. Ou seja, a história do Jethro fictício se entrelaça com aspectos da própria vida do Ian através de suas letras. Homem e obra se confundem cada vez mais.

Já as músicas de tema campestre/rural da fase folk da banda são usadas para contar as histórias de natureza e de fazendas e etc que fazem parte da jornada de Jethro e seus descendentes. No meio disso, servindo como elemento de ligação do enredo, há 5 músicas novas. Eu preciso pegar alguma gravação pra ouvi-las novamente com atenção, mas gostei especialmente das apresentadas na segunda parte do show.

Aliás, vai uma crítica aqui à iluminação do Teatro Bradesco, ou melhor, à programação de um refletor durante uma dessas novas músicas (acho que foi Fruits of Frankenfield), que estava jogando uma luz muito forte diretamente nos olhos de todo mundo, era impossível olhar para o palco sem proteger os olhos com as mãos. Foram algumas minutos bem desconfortáveis, nem deu pra aproveitar direito a música, por sorte foi a única onde algo do gênero aconteceu.

Não tenho críticas a fazer em relação ao show. Gostei da proposta e da execução. O que vejo incomodando as pessoas (mudança de letras e os demais cantores) me agradaram bastante, foi interessante ver uma história se desenvolver durante o show enquanto curtia músicas que escuto e canto sozinho há tanto tempo, e ver aquele cara lá na frente fazendo as micagens dele com a flauta. Mas mais do que o apelo emocional, o conceito realmente me convenceu. No mais, a voz do Ian todo mundo sabe que nunca mais será a mesma. Ele não arrisca mais os agudos, que ficam por conta dos outros cantores, e em alguns momentos muda o tom da música pra conseguir cantar, mas nada que chegue a incomodar. Dá pra ver que eles está confortável no palco com esse arranjo, indo até onde pode e com outros fazendo o resto, e isso resulta num bom show. Além do mais, o Ryan já é conhecido dos fãs e faz bons vocais e a moça nova destrói tudo, super afinada e com agudos potentes, além de tocar violino. Caramba, até o David Goodier faz bonito cantando!

Enfim, se eu pudesse seguiria esse show pelo Brasil nos próximos dias e veria tudo de novo, foi visualmente bonito, bem executado, bem amarrado conceitualmente e emocionante para um fã que esperou tanto por isso, como eu.
Set 1:
  1. Heavy Horses
    (Jethro Tull)
  2. Wind-Up
    (Jethro Tull)
  3. Aqualung
    (Jethro Tull)
  4. With You There to Help Me
    (Jethro Tull)
  5. Back to the Family
    (Jethro Tull)
  6. Farm on the Freeway
    (Jethro Tull)
  7. Prosperous Pasture
    (nova música)
  8. Fruits of Frankenfield
    (nova música)
  9. Songs From the Wood
    (Jethro Tull)

Set 2:

  1. And the World Feeds Me
    (nova música)
  2. Living in the Past
    (Jethro Tull)
  3. Jack-in-the-Green
    (Jethro Tull)
  4. The Witch’s Promise
    (Jethro Tull)
  5. Weathercock
    (Jethro Tull)
  6. Stick, Twist, Bust
    (nova música)
  7. Cheap Day Return
    (Jethro Tull)
  8. A New Day Yesterday
    (Jethro Tull)
  9. The Turnstile Gate
    (nova música)
  10. Locomotive Breath
    (Jethro Tull)
  11. Encore:
  12. Requiem and Fugue
    (Tull’s ‘Requiem’ + Bach’s Fugue & Bouree)

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Published inMúsica
  • Marcos Matias

    Po, que legal, é um pouco mais que um show na verdade. Gostei da proposta, fiquei curioso, tem video do show por aí será?

  • http://www.lucasferraz.com Lucas Rafael Ferraz

    Cara, ainda não procurei nada. Se tiver eu acredito que seja gravação de platéia. Se achar algo te passo. 🙂

  • Jonas Daggadol

    Muito bom, hein? Dá vontade de ver mesmo, e olha que sou apenas um fã de “Aqualung”, rs.

  • http://www.lucasferraz.com Lucas Rafael Ferraz

    Pô, vale a pena demais!!
    Certeza que isso sai em DVD, com certeza vou comprar. =D