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#AntiMachismoNerd

Eu relutei em escrever qualquer coisa sobre esse assunto. Não queria que parecesse um ataque de oportunidade, mas no final das contas o fato é que esse post é mais pra mim mesmo do que para quem possa porventura estar lendo.

A primeira vez que ouvi o termo podcast foi em 2010 quando um amigo de onde trabalhava me mostrou o NerdCast. Para me cativar, sabendo do meu vício por Tolkien, me indicou os episódios sobre Senhor dos Anéis e O Hobbit. Por anos eu ouvi o programa esporadicamente, assim como fiz com o MRG tempos depois, pulando temas e ficando longos períodos sem contato.

Esse meu amigo estava lendo A Batalha do Apocalypse, que ele comprou logo que saiu, nas primeiras edições da NerdBooks. Era visível o brilho nos olhos dele ao falar sobre o livro. Já naquela época o NerdCast e seus participantes estavam deixando de ser apenas outros caras que falavam sobre coisas que gostávamos e passavam a ser o produto de que gostávamos em si. O fenômeno de se tornar fã de outros fãs.

Fato é que quando você está num ambiente dominado por homens, cercado por seus amigos homens, não é natural se questionar sobre certas piadas. Normal é rir e considerar tudo como apenas uma brincadeira. Afinal, não tinham “brincado” tanto com a gente antes?

Eu comecei a ler muito ainda no ensino fundamental. Minha lembrança de meu envolvimento com Tolkien é… elusiva. Eu acho que aconteceu de um jeito, porém sei que pode ser apenas meu cérebro preenchendo os vazios. De qualquer forma, me lembro de, em 2001, ter visto o primeiro número da revista Universo Fantástico de Tolkien, que durou 12 edições. Eu ia sempre na banca com meu pai, comprar quadrinhos do Homem-Aranha.

Na revista soube sobre esse grande filme que ia sair, e sobre o livro do Senhor dos Anéis. Ganhei o livro de aniversário, aquele tijolo de 1200 páginas, e li antes de ver o primeiro filme nos cinemas. Minhas lembranças da infância são bem apagadas, mas eu era bastante zoado, o estereótipo do gordinho nerd. Como defesa, me escondia atrás dos livros, e hoje tenho a clareza de ver que não deveria ser uma companhia tão agradável, imbuído de arrogância e um senso de superioridade distorcido, pelo simples fato de ler livros longos.

Mas a grande verdade é que eu passei pela fase que toda criança e adolescente passa, estando em uma ponta ou outra do espectro. O oprimido e o opressor são mais parecidos do que parece, e os próprios conceitos se misturam. Digo isso em relação a minha experiência e as pessoas que eu conheci.

Depois de adolescente e adulto, entretanto, não tive problemas de má recepção. Nunca me olharam torto quando joguei com meus amigos, por mais noob que fosse no WoW (e era muito). Nunca questionaram meus conhecimentos sobre quadrinhos numa conversa na hora do almoço. Nunca perguntaram com que autoridade eu falava sobre Tolkien em fóruns na internet. Nunca ameaçaram minha integridade física ou me caluniaram. Nunca. E por não saber o que isso era, considerava uma piada, por mais pesada que fosse, como apenas humor.

Em 2013 voltei a ouvir podcasts através de programas de literatura. A literatura sempre esteve presente na minha vida, mas a partir dessa época passou a tomar conta dos meus hobbies completamente, de forma que eu senti a necessidade de atuar mais do que como leitor. Eu queria produzir conteúdo, e a partir desse momento me vi conhecendo muita gente diferente, gente questionadora, gente analítica, gente capaz de despertar meu lado de humanas, não totalmente morto, mas um tanto desacordado pela longa maratona de números e lógica que foi a faculdade de Engenharia.

Isso aliado à própria natureza inquieta e insatisfeita inerente a muitas coisas que leio, me fez ter menos certezas sobre como o mundo funciona e sobre como as pessoas são. E esse é o passo essencial para entender realidades nas quais você não está inserido: ter menos certezas.

Não foi de uma hora para outra, mas gradualmente uma piada ou outra que, se não tivesse sido capaz de tirar um sorriso, teria ao menos passado batida, começou a fazer com que eu levantasse a sobrancelha. Revirasse os olhos. Me indignasse mais e mais a cada vez que a ouvisse. De repente, ou não tão de repente, livros com personagens femininas fracas e dependentes começaram a gritar a palavra “clichê” enquanto os lia. E, eventualmente, o feed daquele podcast que começou a coisa toda permanecia no agregador apenas por força do hábito, porque parecia errado tirar ele de lá, porque ele tinha começado tudo. Simplesmente tudo.

Então outros podcasts começaram a tomar o lugar, ou melhor, o tempo de audição. Podcasts de temas diferentes: literatura, música, generalidades, ciências. Podcasts que propagam menos preconceitos, que tratam assuntos delicados com bom senso, que me fazem refletir, me fazem pensar e proporcionam uma sensação boa de estar obtendo informação e efetivamente aprendendo. Efetivamente me tornando alguém melhor.

Nesse contexto, escutar o AntiCast 198 foi, no mínimo, libertador. Ouvir pessoas falando abertamente de algo que já ouço há tanto tempo em certos círculos, e ver os maiores comunicadores da mídia podcast brasileira serem cobrados publicamente e duramente por assumirem posturas destrutivas e não darem a mínima para quem reclama disso me fez vibrar. No fundo muita gente queria fazer isso, e eu fico muito feliz que alguém tenha tido a coragem de fazê-lo.

Hoje, finalmente, o NerdCast e o MRG saíram do meu agregador de feeds. E não pareceu errado.

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Published inOpiniãoPodcasts
  • Jonas Daggadol

    Pois é, meu amigo. As coisas mudam, evoluem, retrocedem. Muito bom o texto, bem pessoal.
    Numa mesa comendo uns petiscos levaria a um longo e produtivo papo.

  • Lucas Rafael Ferraz

    Com certeza!! Esse episódio do Anticast rendeu muita repercussão nas mídias, infelizmente apenas os caras criticados, pessoal do Jovem Nerd e MRG, continuam fingindo que nada aconteceu.

    Abraço!

  • Roman Schossig

    Oi Lucas. Ótimo texto. É engraçado mesmo como o nerd, que sente o machismo na pele quando criança e adolescente, cresce e se torna muitas vezes outro machista babaca.

  • Lucas Rafael Ferraz

    Olá Roman!

    É irônico né? Mas de certa forma entendo isso. Passamos por um processo de construção de personalidade difícil de ser revisto, e quase impossível de acontecer de dentro pra fora, por isso acho iniciativas como esse AntiCast de grande valor e faço o pouco que posso para divulgar e instigar reflexão.

    Obrigado por comentar! 🙂