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Ancillary Justice

Duas pessoas fugindo num mundo gelado, uma delas doente. Os pronomes são confusos e os nomes estranhos. Pode até parecer, mas não estou falando de A Mão Esquerda da Escuridão, de Úrsula K. Le Guin. O começo do livro tem essa pegada e remete muito à obra de Le Guin, mas isso passa rápido, e um universo muito diferente se revela. Estava querendo ler esse livro faz um certo tempo, e finalmente peguei na KoboStore.

A expectativa era grande, afinal o livro ganhou o Hugo, o Nebula e o Arthur C. Clark Award de melhor sci-fi, além de um Locus de melhor livro de estréia, entre outros. A primeira vez que ouvi algo sobre a obra foi no Drone Saltitante (quando ainda era The White Robot), na época achei uma ideia bastante maluca e acabei deixando para depois. Segue o link do episódio: TWR #040 Review – Ancillary Justice.

Leckie_AncillaryJustice_TPAfinal, do que se trata Ancillary Justice? A trama principal do livro, o que motiva a protagonista é bem simples: Vingança. O complexo é o worldbuilding de Ann Leckie, e para falar disso acho que a melhor maneira é explicar quem é a protagonista. Justice of Toren é uma gigantesca nave do tipo usado pelo Império Radch nas operações militares que chamam de anexações, onde outros mundos são conquistados e passam a fazer parte do Império. Justice of Toren é a nossa protagonista. Sim, a nave.

Acontece que as naves do Império Radch tem uma Inteligência artificial avançadíssima, e também tem seus auxiliares (ancillary, em inglês), que são corpos humanos que compartilham da IA da nave e são controlados por ela. Nesse ponto temos um grande desafio narrativo, que em minha opinião a autora fez muito bem: quem narra o livro é Justice of Toren, a mesma entidade presente na nave e nos auxiliares. Há passagens onde a mudança de ponto de vista é bem dinâmica, pois varia da nave para os diversos auxiliares, mas que são todos a mesma consciência. É um livro para ser lido com calma para não se perder com esse tipo de coisa.

A história de divide em duas narrativas, a primeira 20 anos no passado, quando Justice of Toren existia, e conta como ela foi destruída e apenas um de seus auxiliares, One Esk, sobreviveu. A segunda narrativa fala da busca de One Esk, no presente, por uma arma com a qual pretende se vingar de quem causou todos seus problemas, Anaander Mianaai, líder do Império. Nos últimos capítulos do livro não há mais a narrativa dos acontecimentos passados.

Outro ponto interessante é a particularidade do povo Radachai de não diferenciar gêneros. Como consequência, One Esk, que usa o nome de Breq para manter sua identidade secreta, tem dificuldades quando se encontra com povos de outras culturas e precisa descobrir qual o gênero de tais personagens, pois no geral ele usa o pronome feminino para todo mundo. Isso faz com que o gênero de muitos personagens nunca seja realmente revelado, e mesmo alguns que eu sabia serem masculinos eu imaginava como mulheres, ou como seres mais andróginos.

Outro ponto interessante é o modo como a autora justificou o fato de suas IA’s terem emoções:

Seven Issa frowned, and made a doubtful gesture with her left hand, her gloved fingers curled around half a dozen counters. “Ships have feelings.”

“Yes, of course.” Without feelings, insignificant decisions become excruciating attempts to compare endless arrays of inconsequential things. It’s just easier to handle those with emotions. “But as I said, I took no offense.”

O que ela diz é que algumas escolhas que envolvem a análise de muitas variáveis tornam decisões muitos mais difíceis, mesmo para uma máquina. É claro que isso atende uma necessidade da trama, pois Breq não poderia ser uma IA puramente lógica, mas eu me pergunto o quão longe da verdade isso estaria. Mesmo um super computador com uma IA perfeita não seria capaz de levantar todas as variáveis para tomar decisões baseadas totalmente em dados. É algo bastante diferente de fazer um computador jogar xadrez. Então, o que fazer quando a melhor análise lógica que pode ser feita não chega a uma conclusão totalmente satisfatória?

O que me agrada nisso é ver que essa sociedade, diferente de outras histórias sci-fi, chegou no limite do desenvolvimento de inteligências artificiais, e, se vendo sem espaço para melhorar, resolveu colocar emoções em jogo. Isso me agrada muito mais do que os computadores que são quase deuses que vemos em outros livros. Claro que fazer uma IA com emoções tão perfeitas quanto a desse livro é algo igualmente inimaginável, mas para mim isso resulta numa história mais satisfatória.

On one level the answer is simple – it happened when all of Justice of Toren but me was destroyed. But when I look closer I seem to see cracks everywhere. Did the singing contibute, the thing that made One Esk different from all other units on the ship, indeed in the fleets? Perhaps. Or is anyone’s identity a matter of fragments held together by conveniente or useful narrative, that in ordinary circunstances never reveals itself as a fiction? Or is it really a ficition?

Eu destaquei esse ponto porque gostei da reflexão que Leckie faz usando a IA da nave, dividida em muitos corpos auxiliares, e que também pode ser vista como um questionamento da nossa consciência humana individual. Nesse trecho Breq reflete se One Esk, a parte da Justice of Toren que sobreviveu, teria algo de diferente do resto da consciência da IA, por ter tomado decisões que talvez outro auxiliares não tivessem tomado, ou se, na verdade, sua personalidade era apenas um fragmento dentre muitos que compõe a ficção à qual se referia como consciência. Ou seja, nossa consciência, nossa identidade, é uma coisa só, ou é composta de várias facetas comportamentais diferentes?

“Pain is a warning,” said Anaander Mianaai. “What would happen if you removed all discomfort from your life? No,” Mianaai continued, ignoring Seivarden’s obvious distress ar her words, “I value moral indignation. I encourage it.”

Nessa passagem a líder do  Império, que também é a ameaça da história, diz que não elimina uma casa nobre que é sua rival porque não gostaria de remover tudo que a incomodasse. Considerei isso um traço muito interessante da personalidade de quem, de certa forma, poderíamos chamar de vilão da história. É como se ela quisesse evitar se tonar uma entidade tirana e absolutista ao se lembrar que tem sim opositores. Não vou falar mais de Anaander Mianaai para não estregar as surpresas do livro, mas gostei demais de como foi desenvolvida, apesar de também ser capaz de dar um nó na cabeça do leitor desatento.

Apesar de todas as complexidades que apresenta, Ancillary Justice não foi uma leitura pesada para mim, mas bastante divertida e instigante. A narrativa é prazerosa e o ritmo é perfeito para a história. A trama em si é simples, e a autora encontrou um equilíbrio bem legal entre a história, o desenvolvimento de personagens e a apresentação e aplicação dos conceitos que inventou. Importante notar que apesar de ser o começo de uma trilogia (Ancillary Sword já foi lançado, e o último volume se  chamará Ancillary Mercy), a história desse livro se fecha muito bem.

Vale muito a pena ler, e há uma promessa da Editora Aleph de lançar esse livro até o final do ano, então se você não domina inglês, basta esperar uns meses.

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Published inResenha